Mais de 100 brasileiros morrem na guerra na Ucrânia, diz agência
Não é incomum ouvir português em áreas sob controle militar ucraniano. Agora, após uma reforma nos contratos e nos salários oferecidos a combatentes, as autoridades de Kiev esperam ampliar ainda mais a participação de estrangeiros na guerra contra a Rússia, inclusive de brasileiros.
Embora os números exatos sejam mantidos em sigilo por razões estratégicas, diferentes elementos apontam para uma presença significativa de brasileiros no conflito. Um deles é a existência de uma companhia militar formada majoritariamente por falantes de português e liderada por brasileiros.
Nas redes sociais, os canais oficiais de recrutamento de estrangeiros da Ucrânia publicam regularmente conteúdos em português, muitos deles convidando brasileiros a aderirem às forças ucranianas.
Outro indício são as contagens não oficiais de mortos e desaparecidos baseadas em anúncio públicos disponíveis na internet, que colocam o Brasil entre os países com maior número de combatentes estrangeiros mortos na guerra.
Durante a apuração desta reportagem, o país aparecia na terceira posição, com mais de 100 mortes, atrás de Estados Unidos e Colômbia.
Dados parecidos também são citados pelo Itamaraty, que confirmou 92 brasileiros desaparecidos e 35 óbitos. O número mais que dobrou desde dezembro do ano passado.
Entre os casos mais recentes está o de Edi Soares de Souza, morto em combates na região de Zaporíjia.
Ucrânia busca reforços estrangeiros
A necessidade de recrutar combatentes internacionais está diretamente ligada aos desafios enfrentados pelas Forças Armadas da Ucrânia após mais de quatro anos de guerra.
Estudos recentes estimam que entre 125 mil e 150 mil soldados ucranianos morreram desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. Outros mais de 200 mil militares teriam desertado.
Em fevereiro de 2022, apenas três dias após o início da invasão, o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, fez um apelo público a voluntários estrangeiros.
"Quem quiser se juntar à defesa da Ucrânia, da Europa e do mundo pode vir lutar lado a lado com os ucranianos contra os criminosos de guerra russos", afirmou.
Desde então, milhares de estrangeiros ingressaram na chamada Legião Internacional da Defesa Territorial da Ucrânia. Em 2026, uma autoridade ucraniana afirmou que mais de 10 mil combatentes de cerca de 75 países haviam lutado pelo país.
Um deles é Giovanni Paese, brasileiro que vive há quatro anos na Ucrânia. À DW, ele contou que decidiu se juntar ao esforço de guerra após ouvir relatos de amigos que já estavam no país.
"Alguns amigos acabaram indo antes de mim, na época, e eles falaram: 'Cara, aqui está difícil. O país é bonito, a galera é gente boa, eles precisam de ajuda'", relata. "O treinamento na época era muito rápido, né? Então, duas, três semanas ali e já estava em missão."
Atualmente, Giovanni atua com drones, função considerada menos exposta do que as missões de infantaria. Ele casou com uma ucraniana, comprou um apartamento e decidiu permanecer no país.
Mercenários ou combatentes estrangeiros?
A presença de estrangeiros no conflito é controversa. Seriam eles mercenários? A resposta a essa pergunta pode ser a diferença entre a vida e a morte de um soldado.
A Rússia enxerga os voluntários estrangeiros que lutam pela Ucrânia como mercenários. Por essa ótica, eles não teriam direito às proteções garantidas aos prisioneiros de guerra pela Convenção de Genebra. Foi o que as autoridades russas argumentaram em casos como o do brasileiro Herik Ferreira Soares, capturado durante o conflito.
Estrangeiros capturados pelos russos arriscam até mesmo ser condenados à morte, pena que é posta em prática na autoproclamada República Popular de Donetsk.
A Ucrânia rejeita essa interpretação. Segundo Kiev, os estrangeiros incorporados à Legião Internacional assinam contratos oficiais, integram a estrutura militar do país e possuem os mesmos direitos, deveres e remuneração dos soldados ucranianos.
Especialistas em direito internacional afirmam que essa é justamente uma das razões pelas quais muitos juristas contestam a classificação adotada pela Rússia.
A Organização das Nações Unidas mantém uma posição historicamente crítica ao mercenarismo e possui convenções específicas sobre o tema. No entanto, a ONU não classificou oficialmente os combatentes estrangeiros que atuam ao lado da Ucrânia como mercenários.
Salários mais altos e novos incentivos
Numa tentativa de atrair mais voluntários e reter tropas, o governo ucraniano reformulou recentemente os contratos oferecidos a estrangeiros.
Os novos modelos preveem permanência mínima de seis meses e incluem facilidades migratórias, como autorização para permanecer no país por um período após o término do serviço militar. O principal atrativo, porém, é financeiro.
Dependendo da função exercida e da proximidade da linha de frente, a remuneração mensal pode alcançar o equivalente a cerca de R$ 53 mil. Após a reforma, o ministro da Defesa da Ucrânia afirmou que o país teria a infantaria e as tropas de assalto mais bem pagas do mundo.
Mesmo assim, veteranos alertam que a realidade costuma ser bem diferente da imagem difundida nas redes sociais.
"Eu desconheço um soldado que ficou rico aqui", afirma o brasileiro Anderson Quadros, que atua ao lado de Paese. "Pouquíssimos, têm a sorte do Giovanni, que conseguiu adquirir casa, adquirir um carro. A maioria vem para cá, e se não for ferido ou morto, não consegue adquirir nada. A maioria acaba caindo em tentação de álcool, de cigarro, de mulher, de balada".
Mortes, desaparecimentos e denúncias
Na linha de frente, soldados permanecem por longos períodos em trincheiras e posições improvisadas sob intenso bombardeio, quase sem ver a luz do sol.
Rodrigo Lopes e Naiano Gonçalves, dois brasileiros que passaram 11 meses na guerra e se preparavam para retornar ao Brasil, relataram à DW as dificuldades enfrentadas durante o serviço.
"Eu sempre ouvia dizer que a brigada era um moedor de carne: joga cem no front e volta dez", disse Gonçalves.
Fonte: G1




















